sexta-feira, 4 de julho de 2014

O MINISTÉRIO APOSTÓLICOS É PARA NOSSOS DIAS?

O MINISTÉRIO APOSTÓLICOS É PARA NOSSOS DIAS?




O MINISTÉRIO APOSTÓLICOS É PARA NOSSOS DIAS?

* Rev. José Kennedy de Freitas Ph.D

O Senhor Jesus Cristo fundou, estabeleceu e continua a edificar sua Igreja através dos séculos. Dentre os vários dons e ofícios que ele tem distribuído ao seu povo estão aqueles que se referem aos líderes da Igreja. Esses líderes são os oficiais da igreja, capacitados e chamados por Deus, bem como reconhecidos pela congregação, para sua função. Ofícios Eclesiásticos

Os oficiais da Igreja têm a responsabilidade de guiar o povo de Deus através da liderança pelo exemplo, bem como através do ensinamento da Palavra e dos preceitos de Deus, que alimentam os cristãos espiritualmente. A eles também é conferida a responsabilidade de supervisionar a administração da Igreja. Sua obra é para a edificação da Igreja.

As qualificações requeridas daqueles que são chamados para os ofícios de liderança na Igreja, bem como suas responsabilidades, são encontradas em diversas porções das Escrituras (1 Timóteo 3 é um dos melhores exemplos).
É importante ressaltar que aqueles apontados aos ofícios da Igreja têm dons espirituais que também se encontram, em diferentes graus, nos membros da congregação. Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo; há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. O Espírito Santo confere seus dons e opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer (1 Coríntios 12:4-11). Os oficiais da Igreja, entretanto, têm de ter reconhecimento público, ou seja, do povo de Deus, com relação aos seus dons, capacidade, e chamada para as funções de liderança.

O Novo Testamento menciona três ofícios de liderança na Igreja: apóstolos, presbíteros (ou bispos, ou pastores; os três termos são usados nas Escrituras significando o mesmo ofício, cf. Tt 1:5-7; At. 20: 17; 28) e diáconos. É evidente que as igrejas cristãs têm através dos séculos instituído padrões diferentes de governo eclesiástico, divergindo quanto ao entendimento mais apropriado do modelo bíblico. Historicamente, entretanto, houve um consenso de que o ofício apostólico não mais existe na Igreja.

Alguns cristãos na história recente da Igreja, porém, têm argumentado que não há nenhum versículo bíblico que diga explicitamente que não pode haver apóstolos nos dias de hoje. Algumas igrejas vão até ao ponto de denominar alguns de seus lideres como apóstolos. Muitos cristãos se submetem a tais apóstolos com a idéia de que estão se submetendo a autoridades no mesmo nível dos apóstolos Paulo e Pedro, por exemplo.

Isso obviamente levanta a questão: há apóstolos hoje? É bíblico que igrejas denominem seus líderes apóstolos? É verdade que se alguém negar que possa haver apóstolos hoje, essa pessoa estará negando a validade dos dons do Espírito para hoje, bem como o modelo bíblico de vida e organização eclesiástica?

O primeiro passo para que tais questões sejam respondidas é examinar o conceito bíblico da apostolado, sua função, responsabilidade, e qualificações necessárias. O Significado da Palavra "Apóstolo"

Existem dois sentidos básicos para o termo "apóstolo". De um modo mais geral, o termo se refere a qualquer pessoa que seja um enviado ou emissário de Deus através da Igreja para uma obra especial, seja de liderança ou não (Fl. 2:25). Esse significado provém da correlação entre o substantivo "apóstolo" (ἀπόστολος) e o verbo em grego que significa "enviar" (ἀποστέλλω). Nesse sentido mais geral, não há dificuldade em se aceitar que qualquer pessoa pode ser um apóstolo de Deus. Qualquer pessoa pode ser enviada, por exemplo, por uma igreja para o trabalho missionário, e, nesse sentido amplo, ela é um apóstolo de Deus.

No Novo Testamento, porém, o sentido mais comum da palavra é o sentido técnico e restrito, se referindo a um grupo seleto dos apóstolos de Cristo. A palavra traduzida "apóstolo" (e suas derivações) é encontrada 80 vezes no texto grego do Novo Testamento (Nestle-Aland 27a. Ed.). Dessas, ela tem esse sentido restrito nada menos do que 73 vezes. O sentido mais amplo de "enviado" ocorre somente 5 vezes (Jo. 13:16; 2 Co. 8:23; Fl. 2:25; At. 14:4 e 14 são duas referências ambíguas); ela se refere uma vez a Jesus Cristo (Hb. 3:1); e, finalmente, há 3 ocorrências que apresentam dificuldades exegéticas, podendo ter tanto o sentido mais amplo como o mais técnico: Rm. 16:7; At. 14:4; 14.

Sendo que não há controvérsia quanto ao sentido mais amplo da palavra (podendo em tese ser aplicada a qualquer pessoa que seja enviada para uma missão, seja um oficial da Igreja ou não), nosso foco aqui é no sentido mais técnico da palavra, ou seja, no ofício do apostolado, que alguns alegam ter nos dias de hoje. Os Apóstolos e as Escrituras
Essencial para o entendimento do papel dos apóstolos é o fato de que o Novo Testamento foi escrito por eles e por seus companheiros mais próximos, sob a inspiração de Deus. A eles foi dada, pelo Espírito Santo, a habilidade de se lembrarem precisamente das palavras e ensinamentos de Jesus, para que as ensinassem de maneira verbal e escrita.
Jesus disse aos seus discípulos (mais tarde chamados apóstolos): "Isto vos tenho dito, estando ainda convosco; mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito". (João 14:25-26).

Por causa disso, os apóstolos consideraram seus escritos explicitamente como sendo do mesmo nível de inspiração e autoridade do Antigo Testamento. Eles tinham consciência de que seus escritos também eram as Escrituras inspiradas de Deus. Eis alguns exemplos: “para que vos recordeis das palavras que, anteriormente, foram ditas pelos santos profetas, bem como do mandamento do Senhor e Salvador, ensinado pelos vossos apóstolos”, (2 Pedro 3:2).

“Se alguém se considera profeta ou espiritual, reconheça ser mandamento do Senhor o que vos escrevo”. (1 Coríntios 14:37).

“Outra razão ainda temos nós para, incessantemente, dar graças a Deus: é que, tendo vós recebido a palavra que de nós ouvistes, que é de Deus, acolhestes não como palavra de homens, e sim como, em verdade é, a palavra de Deus, a qual, com efeito, está operando eficazmente em vós, os que credes”. (1 Tessalonicenses 2:13).

“ao falar acerca destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles”. (2 Pedro 3:16).

Note que a palavra traduzida "Escrituras" em 2 Pe. 3:16 ocorre 51 vezes no texto grego do Novo Testamento, e ela se refere ao Antigo Testamento (ou seja, não a quaisquer escritos, mas à Palavra de Deus) em todas as ocorrências. Deste modo, Pedro explicitamente coloca as epístolas de Paulo no mesmo nível de autoridade e inspiração do Antigo Testamento.

Os apóstolos, em virtude de seu ofício apostólico, tinham a autoridade para receber a revelação direta da Palavra de Deus e escrevê-las para o uso da Igreja. Isso, na verdade, foi historicamente o primeiro critério para que um documento fosse considerado, na Igreja Primitiva, como sendo parte do Novo Testamento.

Que dizer então dos evangelhos de Marcos e Lucas, do livro de Atos, da epístola aos Hebreus e a epístola de Judas? Marcos, Lucas, e Judas (não o Iscariotes) não eram apóstolos, e não se sabe com certeza quem foi o autor da epístola aos Hebreus. Tais livros foram aceitos pela Igreja Primitiva porque, além de outros fatores, seus autores eram companheiros próximos dos apóstolos, e escreveram sob sua supervisão. A evidência bíblica e histórica é que São Lucas escrevia sob a supervisão de Paulo, e Marcos sob a supervisão de Pedro. Judas era irmão de Jesus. A epístola aos Hebreus era considerada por muitos como sendo de autoria de Paulo, e outros a consideraram como autêntica por refletir claramente os ensinamentos dos apóstolos.

O fato do Novo Testamento ter sido produzido, de uma maneira ou de outra, pelos apóstolos, é de vital importância para o entendimento do apostolado. Os apóstolos foram comissionados diretamente por Jesus para trazerem suas Palavras inspiradas à Igreja. Ninguém tinha o direito de alegar ter autoridade divina para seus escritos se esta pessoa não fosse um apóstolo ou um de seus companheiros.

Ninguém, na história subseqüente da Igreja, jamais teve o direito de incluir seus escritos nas Escrituras Sagradas, pois o cânon da Bíblia foi completado após a morte de João, o último apóstolo. Isso por si só indica claramente que, se houvesse apóstolos em qualquer época após o período no Novo Testamento, seus escritos poderiam ser incluídos nas Escrituras, e todos os cristãos estariam obrigados a aceitá-los como sendo a Palavra de Deus. Sendo isso impossível, é impossível que haja apóstolos após o primeiro século, muito menos nos dias de hoje.

As Qualificações dos Apóstolos

Havia duas qualificações para o apostolado:

1. O apóstolo tinha de ser testemunha ocular de Jesus ressurreto.

Até ao dia em que, depois de haver dado mandamentos por intermédio do Espírito Santo aos apóstolos que escolhera, foi elevado às alturas. A estes também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas provas incontestáveis, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas concernentes ao reino de Deus. (Atos 1:2-3)
Isso foi um dos requerimentos para que o substituto de Judas Iscariotes fosse escolhido:

É necessário, pois, que, dos homens que nos acompanharam todo o tempo que o Senhor Jesus andou entre nós, começando no batismo de João, até ao dia em que dentre nós foi levado às alturas, um destes se torne testemunha conosco da sua ressurreição. (Atos 1:21-22).

Da mesma maneira: Com grande poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça. (Atos 4:33).

São Paulo, por sua vez, também foi testemunha ocular do Senhor Jesus ressurreto:

"Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote e lhe pediu cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que, caso achasse alguns que eram do Caminho, assim homens como mulheres, os levasse presos para Jerusalém. Seguindo ele estrada fora, ao aproximar-se de Damasco, subitamente uma luz do céu brilhou ao seu redor, e, caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Ele perguntou: Quem és tu, Senhor? E a resposta foi: Eu sou Jesus, a quem tu persegues; mas levanta-te e entra na cidade, onde te dirão o que te convém fazer". (Atos 9:1-6).

Assim sendo, São Paulo faz questão de ressaltar que sua credencial apostólica também era baseada no fato de que ele era testemunha ocular de Jesus ressurreto:

"Não sou eu, porventura, livre? Não sou apóstolo? Não vi Jesus, nosso Senhor? Acaso, não sois fruto do meu trabalho no Senhor?" (1 Coríntios 9:1).

Depois, foi visto por Tiago, mais tarde, por todos os apóstolos e, afinal, depois de todos, foi visto também por mim, como por um nascido fora de tempo. Porque eu sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo, pois persegui a igreja de Deus. (1 Coríntios 15:7-9).

Note que Paulo diz que ele foi o último dos apóstolos comissionados por Jesus. Suas palavras foram aqui inspiradas por Deus, e, portanto não há a possibilidade que ele estivesse enganado, ou que apenas desconhecesse outros apóstolos comissionados depois dele.

2. O apóstolo tinha de ter recebido sua comissão apostólica diretamente de Jesus.

Os Doze apóstolos originais tinham comissão direta de Jesus: E, quando amanheceu, chamou a si os seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu também o nome de apóstolos: Simão, a quem acrescentou o nome de Pedro, e André, seu irmão; Tiago e João; Filipe e Bartolomeu; Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado Zelote; Judas, filho de Tiago, e Judas Iscariotes, que se tornou traidor. (Lucas 6:13-16; cf. Mt. 10:1-7; Mc. 3:14)
Por esta razão, quando da apostasia de Judas e da necessidade de que seu ofício fosse preenchido por outro, os apóstolos buscaram a comissão direta de Deus:

É necessário, pois, que, dos homens que nos acompanharam todo o tempo que o Senhor Jesus andou entre nós, começando no batismo de João, até ao dia em que dentre nós foi levado às alturas, um destes se torne testemunha conosco da sua ressurreição. Então, propuseram dois: José, chamado Barsabas, cognominado Justo, e Matias. E, orando, disseram: Tu, Senhor, que conheces o coração de todos, revela-nos qual destes dois tens escolhido para preencher a vaga neste ministério e apostolado, do qual Judas se transviou, indo para o seu próprio lugar. E os lançaram em sortes, vindo a sorte recair sobre Matias, sendo-lhe, então, votado lugar com os onze apóstolos. (Atos 1:21-26)

Da mesma maneira, Paulo enfatizou que tinha recebido sua comissão apostólica diretamente de Jesus:
Paulo, apóstolo, não da parte de homens, nem por intermédio de homem algum, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos, (Gálatas 1:1)

Faço-vos, porém, saber, irmãos, que o evangelho por mim anunciado não é segundo o homem, porque eu não o recebi, nem o aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo. (Gálatas 1:11-12) Quem Eram os Apóstolos?
O número original dos apóstolos, como visto acima, era de 12. Havia significado profético nesse fato, pois seu número correspondia ao número de tribos de Israel. Os 12 apóstolos originais eram a liderança do povo de Deus na Nova Aliança.

Além dos 12, somente duas pessoas são mencionadas explicitamente como sendo apóstolos no Novo Testamento: Paulo (veja acima) e Tiago, o irmão de Jesus e líder da igreja em Jerusalém (Gl. 1:19; 2:9). Paulo menciona claramente que Jesus apareceu ressurreto a Tiago (1 Co. 15:7), e sua liderança em Jerusalém evidencia que os apóstolos tinham reconhecido seu comissionamento direto por Jesus. Quanto a Barnabé (At. 14:4; 14), há duas possibilidades. É possível que as referências em At. 14 tenham o sentido mais técnico da palavra. Neste caso, considerando-se todos os dados acima, e a maneira altamente seletiva na qual o Novo Testamento intitula uma pessoa como apóstolo, se o texto indica que Barnabé era apóstolo no sentido mais restrito pode-se deduzir que ele também possuía as mesmas qualificações dos demais apóstolos. É mais provável, porém, que o sentido da palavra em At. 14 é o mais amplo, já que Paulo e Barnabé tinham sido enviados para uma missão pela igreja em Antioquia, à qual deveriam prestar contas quando completassem a determinada obra (cf. At. 14:27).

Não é impossível que houvesse outros indivíduos que pudessem ter sido considerados apóstolos no primeiro século. Os dados acima estabelecem, contudo, dois pontos principais: em primeiro lugar, mesmo se houvesse outros apóstolos, eles eram com certeza um grupo seleto (pois poucos tinham as duas qualificações necessárias para o oficio) do qual Paulo foi o último membro comissionado (1 Co. 15:8). Isso por si só exclui a possibilidade de haver qualquer apóstolo comissionado por Deus após Paulo. Ninguém pode, após o primeiro século, alegar ter recebido um comissionamento direto de Jesus, através de uma visão ou revelação, para o ofício do apostolado. Deus não contradiz a sua própria Palavra.

Segundo, nenhuma pessoa que não tivesse recebido diretamente de Jesus a autoridade para escrever a Palavra de Deus pela inspiração do Espírito Santo, ou recebido tal comissionamento por um dos apóstolos, não podia ser considerado apóstolo. Tal fato é corroborado não só pela evidência bíblica, mas também pela história da Igreja no processo de reconhecimento do cânon. Isto significa que, estando o número de livros da Bíblia completos, a Palavra de Deus tendo sido por Ele mesmo produzida e preservada por dois mil anos, não é possível que haja apóstolos após a completude do cânon no primeiro século. O Papel dos Apóstolos na Igreja.

Paulo, sob a inspiração do Espírito Santo, nos diz que os apóstolos tiveram um papel definido no plano de Deus para a edificação de sua Igreja. Ele diz aos Efésios que os apóstolos e profetas foram o fundamento da Igreja: Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; (Efésios 2:19-20).

Da mesma maneira, o apóstolo João descreve o edifício da Igreja de Deus glorificada tendo os apóstolos como fundamento: Então, veio um dos sete anjos que têm as sete taças cheias dos últimos sete flagelos e falou comigo, dizendo: Vem, mostrar-te-ei a noiva, a esposa do Cordeiro; e me transportou, em espírito, até a uma grande e elevada montanha e me mostrou a santa cidade, Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, a qual tem a glória de Deus. O seu fulgor era semelhante a uma pedra preciosíssima, como pedra de jaspe cristalina. Tinha grande e alta muralha, doze portas, e, junto às portas, doze anjos, e, sobre elas, nomes inscritos, que são os nomes das doze tribos dos filhos de Israel. Três portas se achavam a leste, três, ao norte, três, ao sul, e três, a oeste. A muralha da cidade tinha doze fundamentos, e estavam sobre estes os doze nomes dos doze apóstolos do Cordeiro. (Apocalipse 21:9-14)

Conclusão

Podemos concluir que a evidência bíblica descarta a possibilidade de que possa haver apóstolos após a primeira geração da Igreja no primeiro século. Como conseqüência, certamente não há apóstolos nos dias de hoje. Os apóstolos eram um grupo seleto de testemunhas oculares de Jesus ressurreto, comissionados pelo próprio Jesus. Somente eles tinham a autoridade para escrever e/ou supervisionar a redação das Escrituras.

O cânon da Palavra de Deus, estando completo, não pode ser expandido por nenhum documento, e, portanto, não há nenhum apóstolo moderno que tenha tal autoridade. Ao mesmo tempo, nenhuma pessoa que não tenha essa autoridade pode ser considerada um apóstolo. Deus não mais confere revelações infalíveis a ninguém. As revelações infalíveis de Deus se encontram exclusivamente no cânon completo das Escrituras.

É importante salientar que o ministério dos apóstolos continua na Igreja hoje – não em pessoas que se denominam apóstolos, mas no Novo Testamento. Cada vez que a Palavra de Deus no Novo Testamento é lida e proclamada, o ministério apostólico cumpre o seu papel. Os apóstolos do primeiro século vivem hoje na Igreja através da Palavra nos dada por Deus por intermédio deles.

Segundo a Palavra de Deus, São João, o evangelista foi o último apóstolo. Os únicos ofícios que permanecem na Igreja (ainda que haja diversos ministérios) são os diácono, presbítero e bispo.

* O autor é Sacerdote Anglicano, Bispo Eleito, Doutor em teologia, Ph.D em Ciências da Religião.

QUAL O SIGNIFICADO DO NOME IGREJA EPISCOPAL CARISMÁTICA?

QUAL O SIGNIFICADO DO NOME IGREJA EPISCOPAL CARISMÁTICA?


Precisamos concordar com uma coisa. O Nome da nossa Igreja é bastante diferente! 

Afinal de contas, o que significa esse nome: Igreja Episcopal Carismática?? É isso que vou lhe responder no texto que se segue. 

Poderíamos dizer sem exagero, que os Gregos na antiquidade foram considerados os "Pais do saber". Os cidadãos gregos maiores de 18 anos, do sexo masculino, tinham o costume de se reunirem em grupos que formavam uma grande assembléia pública e democrática. A essa assembléia chamavam de "Eclésia"(do grego: Εκκλησία, ekklesia). Essa palavra aparece 115 vezes no Novo Testamento e em 112 vezes é traduzida como IGREJA e nas outras 3, como ASSEMBLÉIA. 

O que deve ficar claro para nós, é que a palavra Igreja significa um grupo (uma junção) de pessoas que se reunem (como um tipo de assembléia) para um mesmo propósito. 

A palavra Episcopal é uma derivação da palavra grega "Episcopos" (do grego: επίσκοπος, episcopos) que quer dizer inspetor ou superintendente. 

Para nós essa palavra foi traduzida como BISPO. Assim, o Bispo é um sacerdote que supervisiona outros. Sua jurisdição é composta por um grupo de Paróquias (Igrejas) chamado de Diocese. 

Uma Igreja Episcopal é uma igreja que tem uma forma de organização hierárquica, com a autoridade máxima exercida por um bispo. 

A Igreja Católica Romana, Ortodoxa, Anglicana, Metodista também são igrejas episcopais, pois são governadas por uma Bispo. Além dessas, muitas Igrejas que surgiram nas últimas décadas, tem a forma de governo episcopal. Cito como exemplo a IURD(Igreja Universal do Reino de Deus) que tem o Bispo Edir Macedo como seu líder máximo. Mas que fique bem claro que essa Igreja além de ter um governo episcopal, está muito distante da Igreja Episcopal Carismática em seus credos, ética e forma de ser Igreja. 

Já a palavra Carismática provém da palavra "Charisma"(do grego: χαρισμα, khárisma), a qual é traduzida, na maioria das vezes no Novo Testamento, como "dom". Uma Igreja carismática é uma Igreja que acredita e dá vez ao agir do Espírito Santo em seu meio. 

Acreditamos que o Espírito Santo de Deus age em nós através do derramamento de seus dons sobre o seu povo, como vem acontecendo em toda a história do povo cristão, desde o evento conhecido como Pentecostes, descrito no livro de Atos, capítulo 2. 

A experiência carismática está subordinada a quatro coisas: 

1. ao ensino apostólico - devemos proclamar o ensino continuado dos Apóstolos, como encontramos no Novo Testamento. 

2. à pregação bíblica - precisamos pregar a fé histórica dos apóstolos como se encontra nas Escrituras; 

3. à adoração histórica - desde os dias dos apóstolos, a adoração dos cristãos está centrada na Ceia do Senhor. Após a Reforma protestante, outro tipo de adoração veio a acontecer e causou uma significativa mudança. Mas, adoração não se dá através de uma liturgia, cantando hinos ou lendo orações. Adoração é o oferecimento das nossas vidas ao Senhor em resposta a Ele; 

4. à "experiência carismática" - uma coisa é sermos apostólicos em fé e doutrina, outra, é sermos apostólicos em vida e experiência. 

Uma Igreja Carismática tem quatro marcas: 

1. é uma Igreja de adoração. O Espírito Santo abre nossos olhos para entendermos quem é Jesus e nos dá o desejo de adorá-lo; 

2. é uma Igreja de ensino. Devemos adorar a Deus não apenas em espírito, mas em verdade. Jesus disse: "O Espírito Santo os guiará em toda verdade" (João 16:13) 

3. é uma Igreja que cuida e que ama. O Espírito de Deus outorga a nós o fruto Espírito, descrito em Gálatas 5 e 6. 

4. finalmente, a Igreja Carismática será sempre uma Igreja que serve. Não somos chamados para sermos senhores do povo, mas para sermos servos. Jesus, Ele próprio, deixou de lado seus direitos, tomou uma toalha e passou a lavar os pés dos seus discípulos (João 13).

Assim, uma Igreja Carismática adora, ensina, ama e serve. Seus membros se oferecem ao Senhor reconhecendo que não possuem em si nenhum merecimento, a não ser pela Graça de Deus. Apenas a Igreja que confia na Graça do Senhor é, verdadeiramente, CARISMÁTICA.

CONHECENDO ALGUNS TERMOS ECLESIÁSTICOS

CONHECENDO ALGUNS TERMOS ECLESIÁSTICOS


A Igreja Episcopal é uma Igreja Histórica. Por conta disso, ela trás consigo uma bagagem grande de nomenclaturas e símbolos que aos olhos de hoje, parecem-nos estranhos, mas são mais comuns do que imaginamos. 

Quero de maneira bastante simples e clara, explicar o significado de alguns termos eclesiásticos utilizados em nossa Igreja. 

Vamos lá: 

  • Eclesiástico ou Eclesiástica - Termos utilizados para tudo que se refere a Igreja. Exemplo: Autoridade Eclesiástica - nada mais é do que um líder religioso. 
  • Paróquia - Nada mais é do que um termo utilizado para cada Igreja local. Cada Igreja Episcopal é chamada de Paróquia e tem um nome que se segue para especificar de qual paróquia estamos falando. Pro exemplo: A Paróquia do Semeador é a Igreja Episcopal em Petrolina - PE. Até então, só tem essa Paróquia nessa cidade.
  • Diocese - A Diocese é uma unidade territorial administrada por um Bispo. Em outras palavras, Diocese é um termo designado para, digamos, um conjunto de Paróquias. 
  • Catedral - Catedral é a Igreja sede do Bispo. Em cada Catedral existe uma cadeira que é utilizada exclusivamente pelo Bispo. Essa cadeira chama-se Cátedra. A Catedral por sua vez, é a Igreja onde fica a Cátedra Episcopal (simplificando: A Cadeira do Bispo). A Catedral é a sede da Diocese, ou seja, cada diocese tem sua catedral, assim como tem seu bispo.
  • Pároco - Essa nomenclatura é utilizada para designar que tal Pastor é o Reitor da Paróquia, ou como é chamado nas Igrejas reformadas, o Pastor Titular. Algumas Igrejas tem mais de um Pastor, sendo que cada Paróquia tem um Pastor que é a autoridade máxima local. O Pároco é designado pelo Bispo Diocesano.
  • Reverendo - É um termo utilizada para referir-se a um clérigo, uma autoridade eclesiástica. Nas Igrejas Evangélicas reformadas, comumente utiliza-se o termo Pastor, em referência a um pastor de ovelhas que cuida do seu rebanho. Na Igreja Católica, utiliza-se o termo Padre, que vem do Espanhol: Pai, em referência a um pai que cuida de seus filhos espirituais. Ambos os nomes tem o mesmo significado, sendo que Reverendo é uma forma de tratamento de acordo com a norma culta.
Para começar está bom! Depois eu escrevo mais.

O PORQUÊ DO COLARINHO CLERICAL!

O PORQUÊ DO COLARINHO CLERICAL!



O colarinho clerical é uma invenção bastante moderna (é provável que tenha sido inventado em 1827).

Pelo que tudo indica, foi inventado pelo Rev. Dr. Donald McLeod, pastor Episcopal.

Foi desenvolvido para ser usado no trabalho cotidiano do ministro por ser bem mais prático do que a batina. 

A idéia é que seja usado principalmente em cerimônias abertas ao público e na docência teológica (para os teólogos sacerdotes é claro).

Além disso, ao usar o colarinho, o clérigo pode ser visivelmente reconhecido e solicitado por qualquer pessoa que precise de seus serviços sacerdotais.
Hoje é usado por pastores em diversas denominações Cristãs.

O Nome dado ao colarinho clerical é: Clesma.

A Clesma por ser branca indica pureza e separação.

Simboliza ainda, que quem o usa é um servo, pois ele é colocado ao redor do pescoço para fazer referência a coleira utilizada pelos escravos no mundo antigo. 

As pessoas que o usam servem como Ministros de sua Palavra. Toda a igreja tem compromisso com o testemunho de Cristo no mundo, no entanto, o pastor compromete-se de modo específico com o Ministério da Palavra. Assim, o colarinho clerical simboliza esse "compromisso pastoral" com o anúncio do Evangelho. 

O colarinho branco sobre fundo preto envolvendo a garganta é simbólico da Palavra de Deus proclamada.

Rev. Rodolfo.

95 Teses de Lutero

95 Teses de Lutero



1ª Tese Dizendo nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo: "Arrependei-vos", certamente quer que toda a vida dos seus crentes na terra seja contínuo arrependimento.

2ª Tese E esta expressão não pode e não deve ser interpretada como referindo-se ao sacramento da penitência, isto é, à confissão e satisfação, a cargo do ofício dos sacerdotes.

3ª Tese Todavia não quer que apenas se entenda o arrependimento interno; o arrependimento interno nem mesmo é arrependimento quando não produz toda sorte de modificações da carne.

4ª Tese Assim sendo, o arrependimento e o pesar, isto é, a verdadeira penitência, perdura enquanto o homem se desagradar de si mesmo, a saber, até a entrada desta para a vida eterna.

5ª Tese O papa não quer e não pode dispensar outras penas, além das que impôs ao seu alvitre ou em acordo com os cânones, que são estatutos papais.

6ª Tese O papa não pode perdoar divida senão declarar e confirmar aquilo que já foi perdoado por Deus; ou então faz nos casos que lhe foram reservados. Nestes casos, se desprezados, a dívida deixaria de ser em absoluto anulada ou perdoada.

7ª Tese Deus a ninguém perdoa a dívida sem que ao mesmo tempo o subordine, em sincera humildade, ao sacerdote, seu vigário.

8ª Tese Canones poenitendiales, que não as ordenanças de prescrição da maneira em que se deve confessar e expiar, apenas aio Impostas aos vivos, e, de acordo com as mesmas ordenanças, não dizem respeito aos moribundos.

9ª Tese Eis porque o Espírito Santo nos faz bem mediante o papa, excluído este de todos os seus decretos ou direitos o artigo da morte e da necessidade suprema

10ª Tese Procedem desajuizadamente e mal os sacerdotes que reservam e impõem aos moribundos poenitentias canonicas ou penitências para o purgatório a fim de ali serem cumpridas.

11ª Tese Este joio, que é o de se transformar a penitência e satisfação, Previstas pelos cânones ou estatutos, em penitência ou penas do purgatório, foi semeado quando os bispos se achavam dormindo.

12ª Tese Outrora canonicae poenae, ou sejam penitência e satisfação por pecadores cometidos eram impostos, não depois, mas antes da absolvição, com a finalidade de provar a sinceridade do arrependimento e do pesar.

13ª Tese Os moribundos tudo satisfazem com a sua morte e estão mortos para o direito canônico, sendo, portanto, dispensados, com justiça, de sua imposição.

14ª Tese Piedade ou amor Imperfeitos da parte daquele qtie se acha às portas da morte necessariamente resultam em grande temor; logo, quanto menor o amor, tanto maior o temor.

15ª Tese Este temor e espanto em si tão só, sem falar de outras cousas, bastam para causar o tormento e o horror do purgatório, pois que se avizinham da angústia do desespero.

16ª Tese Inferno, purgatório e céu parecem ser tão diferentes quanto o são um do outro o desespero completo, incompleto ou quase desespero e certeza.

17ª Tese Parece que assim como no purgatório diminuem a angústia e o espanto das almas, nelas também deve crescer e aumentar o amor.

18ª Tese Bem assim parece não ter sido provado, nem por boas ações e nem pela Escritura, que as almas no purgatório se encontram fora da possibilidade do mérito ou do crescimento no amor.

19ª Tese Ainda parece não ter sido provado que todas as almas do purgatório tenham certeza de sua salvação e não receiem por ela, não obstante nós termos absoluta certeza disto.

20ª Tese Por isso o papa não quer dizer e nem compreende com as palavras “perdão plenário de todas as penas” que todo o tormento é perdoado, mas as penas por ele impostas.

21ª Tese Eis porque erram os apregoadores de indulgências ao afirmarem ser o homem perdoado de todas as penas e salvo mediante a indulgência do papa.

22ª Tese Pensa com efeito, o papa nenhuma pena dispensa às almas no purgatório das que segundo os cânones da Igreja deviam ter expiado e pago na presente vida.

23ª Tese Verdade é que se houver qualquer perdão plenário das penas, este apenas será dado aos mais perfeitos, que são muito poucos.

24ª Tese Assim sendo, a maioria do povo é ludibriada com as pomposas promessas do indistinto perdão, impressionando-se o homem singelo com as penas pagas.

25ª Tese Exatamente o mesmo poder geral, que o papa tem sobre o purgatório, qualquer bispo e cura d’almas o tem no seu bispado e na sua paróquia, quer de modo especial e quer para com os seus em particular.

26ª Tese O papa faz muito bem em não conceder às almas o perdão em virtude do poder das chaves (ao qual não possui), mas pela ajuda ou em forma de intercessão.

27ª Tese Pregam futilidades humanas quantos alegam que no momento em que a moeda soa ao cair na caixa a alma se vai do purgatório.

28ª Tese Certo é que no momento em que a moeda soa na caixa vêm o lucro e o amor ao dinheiro cresce e aumenta; a ajuda, porém, ou a intercessão da Igreja tão só correspondem à vontade e ao agrado de Deus.

29ª Tese E quem sabe, se todas as almas do purgatório querem ser libertadas, quando há quem diga o que sucedeu com Santo Severino e Pascoal.

30ª Tese Ninguém tem certeza da suficiência do seu arrependimento e pesar verdadeiros; muito menos certeza pode ter de haver alcançado pleno perdão dos seus pecados.

31ª Tese Tão raro como existe alguém que possui arrependimento e, pesar verdadeiros, tão raro também é aquele que verdadeiramente alcança indulgência, sendo bem poucos os que se encontram.

32ª Tese Irão para o diabo juntamente com os seus mestres aqueles que julgam obter certeza de sua salvação mediante breves de indulgência.

33ª Tese Há que acautelasse muito e ter cuidado daqueles que dizem: A indulgência do papa é a mais sublime e mais preciosa graça ou dadiva de Deus, pela qual o homem é reconciliado com Deus.

34ª Tese Tanto assim que a graça da indulgência apenas se refere à pena satisfatória estipulada por homens.

35ª Tese Ensinam de maneira ímpia quantos alegam que aqueles que querem livrar almas do purgatório ou adquirir breves de confissão não necessitam de arrependimento e pesar.

36ª Tese Todo e qualquer cristão que se arrepende verdadeiramente dos seus pecados, sente pesar por ter pecado, tem pleno perdão da pena e da dívida, perdão esse que lhe pertence mesmo sem breve de indulgência.

37ª Tese Todo e qualquer cristão verdadeiro, vivo ou morto, é participante de todos os bens de Cristo e da Igreja, dádiva de Deus, mesmo sem breve de indulgência.

38ª Tese Entretanto se não deve desprezar o perdão e a distribuição por parte do papa. Pois, conforme declarei, o seu perdão constitui uma declaração do perdão divino.

39ª Tese É extremamente difícil, mesmo para os mais doutos teólogos, exaltar diante do povo ao mesmo tempo a grande riqueza da indulgência e ao contrário o verdadeiro arrependimento e pesar.

40ª Tese O verdadeiro arrependimento e pesar buscam e amam o castigo: mas a profusão da indulgência livra das penas e faz com que se as aborreça, pelo menos quando há oportunidade para isso.

41ª Tese É necessário pregar cautelosamente sobre a indulgência papal para que o homem singelo não julgue erroneamente ser a indulgência preferível às demais obras de caridade ou melhor do que elas.

42ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos, não ser pensamento e opinião do papa que a aquisição de indulgência de alguma maneira possa ser comparada com qualquer obra de caridade.

43ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos proceder melhor quem dá aos pobres ou empresta aos necessitados do que os que compram indulgências.

44ª Tese Ê que pela obra de caridade cresce o amor ao próximo e o homem torna-se mais piedoso; pelas indulgências, porém, não se torna melhor senão mais seguro e livre da pena.

45ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos que aquele que vê seu próximo padecer necessidade e a despeito disto gasta dinheiro com indulgências, não adquire indulgências do papa. mas provoca a ira de Deus.

46ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem fartura , fiquem com o necessário para a casa e de maneira nenhuma o esbanjem com indulgências.

47ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos, ser a compra de indulgências livre e não ordenada

48ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa precisa conceder mais indulgências, mais necessita de uma oração fervorosa do que de dinheiro.

49ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos, serem muito boas as indulgências do papa enquanto o homem não confiar nelas; mas muito prejudiciais quando, em conseqüência delas, se perde o temor de Deus.

50ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa tivesse conhecimento da traficância dos apregoadores de indulgências, preferiria ver a catedral de São Pedro ser reduzida a cinzas a ser edificada com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.

51ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos que o papa, por dever seu, preferiria distribuir o seu dinheiro aos que em geral são despojados do dinheiro pelos apregoadores de indulgências, vendendo, se necessário fosse, a própria catedral de São Pedro.

52º Tese Comete-se injustiça contra a Palavra de Deus quando, no mesmo sermão, se consagra tanto ou mais tempo à indulgência do que à pregação da Palavra do Senhor.

53ª Tese São inimigos de Cristo e do papa quantos por causa da prédica de indulgências proíbem a Palavra de Deus nas demais igrejas.

54ª Tese Esperar ser salvo mediante breves de indulgência é vaidade e mentira, mesmo se o comissário de indulgências, mesmo se o próprio papa oferecesse sua alma como garantia.

55ª Tese A intenção do papa não pode ser outra do que celebrar a indulgência, que é a causa menor, com um sino, uma pompa e uma cerimônia, enquanto o Evangelho, que é o essencial, importa ser anunciado mediante cem sinos, centenas de pompas e solenidades.

56ª Tese Os tesouros da Igreja, dos quais o papa tira e distribui as indulgências, não são bastante mencionados e nem suficientemente conhecido na Igreja de Cristo.

57ª Tese Que não são bens temporais, é evidente, porquanto muitos pregadores a estes não distribuem com facilidade, antes os ajuntam.

58ª Tese Tão pouco são os merecimentos de Cristo e dos santos, porquanto estes sempre são eficientes e, independentemente do papa, operam salvação do homem interior e a cruz, a morte e o inferno para o homem exterior.

59ª Tese São Lourenço aos pobres chamava tesouros da Igreja, mas no sentido em que a palavra era usada na sua época.

60ª Tese Afirmamos com boa razão, sem temeridade ou leviandade, que estes tesouros são as chaves da Igreja, a ela dado pelo merecimento de Cristo.

61ª Tese Evidente é que para o perdão de penas e para a absolvição em determinados casos o poder do papa por si só basta.

62ª Tese O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.

63ª Tese Este tesouro, porém, é muito desprezado e odiado, porquanto faz com que os primeiros sejam os últimos.

64ª Tese Enquanto isso o tesouro das indulgências é sabiamente o mais apreciado, porquanto faz com que os últimos sejam os primeiros.

65ª Tese Por essa razão os tesouros evangélicos outrora foram as redes com que se apanhavam os ricos e abastados.

66ª Tese Os tesouros das indulgências, porém, são as redes com que hoje se apanham as riquezas dos homens.

67ª Tese As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como a mais sublime graça decerto assim são consideradas porque lhes trazem grandes proventos.

68ª Tese Nem por isso semelhante indigência não deixa de ser a mais Intima graça comparada com a graça de Deus e a piedade da cruz.

69ª Tese Os bispos e os sacerdotes são obrigados a receber os comissários das indulgências apostólicas com toda a reverência

70ª Tese Entretanto têm muito maior dever de conservar abertos olhos e ouvidos, para que estes comissários, em vez de cumprirem as ordens recebidas do papa, não preguem os seus próprios sonhos.

71ª Tese Aquele, porém, que se insurgir contra as palavras insolentes e arrogantes dos apregoadores de indulgências, seja abençoado.

72ª Tese Quem levanta a sua voz contra a verdade das indulgências papais é excomungado e maldito.

73ª Tese Da mesma maneira em que o papa usa de justiça ao fulminar com a excomunhão aos que em prejuízo do comércio de indulgências procedem astuciosamente.

74ª Tese Muito mais deseja atingir com o desfavor e a excomunhão àqueles que, sob o pretexto de indulgência, prejudiquem a santa caridade e a verdade pela sua maneira de agir.

75ª Tese Considerar as indulgências do papa tão poderosas, a ponto de poderem absolver alguém dos pecados, mesmo que (cousa impossível) tivesse deshonrado a mãe de Deus, significa ser demente.

76ª Tese Bem ao contrario, afirmamos que a indulgência do papa nem mesmo o menor pecado venial pode anular o que diz respeito à culpa que constitui.

77ª Tese Dizer que mesmo São Pedro, se agora fosse papa, não poderia dispensar maior indulgência, significa blasfemar S. Pedro e o papa.

78ª Tese Em contrario dizemos que o atual papa, e todos os que o sucederam, é detentor de muito maior indulgência, isto é, o Evangelho. as virtudes o dom de curar, etc., de acordo com o que diz 1Coríntios 12.

79ª Tese Afirmar ter a cruz de indulgências adornada com as armas do papa e colocada na igreja tanto valor como a própria cruz de Cristo, é blasfêmia.

80ª Tese Os bispos, padres e teólogos que consentem em semelhante linguagem diante do povo, terão de prestar contas deste procedimento.

81ª Tese Semelhante pregação, a enaltecer atrevida e insolentemente a Indulgência, faz com que mesmo a homens doutos é difícil proteger a devida reverência ao papa contra a maledicência e as fortes objeções dos leigos.

82ª Tese Eis um exemplo: Por que o papa não tira duma só vez todas as almas do purgatório, movido por santíssima' caridade e em face da mais premente necessidade das almas, que seria justíssirno motivo para tanto, quando em troca de vil dinheiro para a construção da catedral de S. Pedro, livra um sem número de almas, logo por motivo bastante Insignificante?

83ª Tese Outrossim: Por que continuam as exéquias e missas de ano em sufrágio das almas dos defuntos e não se devolve o dinheiro recebido para o mesmo fim ou não se permite os doadores busquem de novo os benefícios ou pretendas oferecidos em favor dos mortos, visto' ser Injusto continuar a rezar pelos já resgatados?

84ª Tese Ainda: Que nova piedade de Deus e dó papa é esta, que permite a um ímpio e inimigo resgatar uma alma piedosa e agradável a Deus por amor ao dinheiro e não resgatar esta mesma alma piedosa e querida de sua grande necessidade por livre amor e sem paga?

85ª Tese Ainda: Por que os cânones de penitencia, que, de fato, faz muito caducaram e morreram pelo desuso, tornam a ser resgatados mediante dinheiro em forma de indulgência como se continuassem bem vivos e em vigor?

86ª Tese Ainda: Por que o papa, cuja fortuna hoje é mais principesca do que a de qualquer Credo, não prefere edificar a catedral de S. Pedro de seu próprio bolso em vez de o fazer com o dinheiro de fiéis pobres?

87ª Tese Ainda: Quê ou que parte concede o papa do dinheiro proveniente de indulgências aos que pela penitência completa assiste o direito à indulgência plenária?

88ª Tese Afinal: Que maior bem poderia receber a Igreja, se o papa, como Já O faz, cem vezes ao dia, concedesse a cada fiel semelhante dispensa e participação da indulgência a título gratuito.

89ª Tese Visto o papa visar mais a salvação das almas do que o dinheiro, por que revoga os breves de indulgência outrora por ele concedidos, aos quais atribuía as mesmas virtudes?

90ª Tese Refutar estes argumentos sagazes dos leigos pelo uso da força e não mediante argumentos da lógica, significa entregar a Igreja e o papa a zombaria dos inimigos e desgraçar os cristãos.

91ª Tese Se a Indulgência fosse apregoada segundo o espírito e sentido do papa, aqueles receios seriam facilmente desfeitos, nem mesmo teriam surgido.

92ª Tese Fora, pois, com todos estes profetas que dizem ao povo de Cristo: Paz! Paz! e não há Paz.

93ª Tese Abençoados sejam, porém, todos os profetas que dizem à grei de Cristo: Cruz! Cruz! e não há cruz.

94ª Tese Admoestem-se os cristãos a que se empenhem em seguir sua Cabeça Cristo através do padecimento, morte e inferno.

95ª Tese E assim esperem mais entrar no Reino dos céus através de muitas tribulações do que facilitados diante de consolações infundadas. 

O Movimento de Convergência

O Movimento de Convergência

Arcebispo Paulo Garcia
A Igreja Episcopal Carismática faz parte do chamado Movimento de Convergência. Não somos uma dissidência, não nascemos de uma ruptura, mas de um retorno as raízes de um cristianismo plantado por Cristo. Nossa Igreja busca encontrar-se com os tesouros da tradição cristã, num mundo cada vez mais apático a eles, e ao mesmo tempo responder ao homem moderno com sua linguagem e aos seus dilemas.

O Movimento de Convergência, no qual estamos inseridos. É assim o retorno a fonte de água viva, na busca de matar a sede de um homem que vive de dilemas. É um sopro do Espírito Santo na história da Igreja Cristã, que sempre caminhou numa estrada de rupturas e isolamentos, a um retorno à unidade primeira.

Uma Igreja convergente não é uma Igreja Sacramental apenas, nenhuma igreja evangélica e tão pouco uma igreja. Somos um movimento que busca retornar essas três tradições bíblicas que permeou o inicio da Igreja, de uma forma relacional. Queremos integrar em nossas vidas o ser sacramental, evangélico e carismático. 

Há uma nova reforma acontecendo, por meio do Movimento de Convergência, essa agora de retorno a uma vida de plenitude desta Igreja cristã, antes das rupturas, a restauração de uma Igreja Apostólica, Santa, Católica e que vive toda a plenitude do Reino de Deus.

Assim o Movimento de Convergência é uma busca pelo renascimento de uma espiritualidade integral na vida da Igreja; 

Por meio de uma vida sacramental, que se relaciona com um Deus presente e mal na história e que nos deixou elementos e ritos que são expressões visíveis de sua presença invisível.

De uma vida evangélica, que compreende a necessidade do homem converter-se a Deus, por meio de Cristo e viver uma vida de relação com Ele através de sua palavra escrita, as Sagradas Escrituras. 

De uma vida carismática, que se situa na compreensão de que a presença pessoal de Deus em nossas vidas, através do Espírito Santo, é real e quer nos mover a uma vida de intimidade o Pai, por meio do Filho. O Espírito não é uma fonte de poder, mas de relação. Ser carismático é relacionar-se com a Trindade pelo Espírito Santo, aquele que distribui os dons e carismas ao corpo de Cristo, sempre na busca de edificar o corpo.

Essas três tradições andam juntas, tendo como centro de convergência uma vida litúrgica, pois é nela que se celebra o Deus Trino. Assim, o evangelical, o sacramental, e o carismático querem  nos levar a uma vida de intimidade e transformação em nossa relação litúrgica com o Deus Pai, criador; Filho, redentor; e o Espírito Santo, consolador, formando uma comunidade entre nós, seu corpo e Ele.

O Movimento de Convergência é uma convocação a um reavivamento de Deus em nossa Igreja, e nós da Igreja Episcopal saudamos esse reavivamento com júbilo.      

39 Artigos de Religião



ARTIGO I - DA FÉ NA SANTÍSSIMA TRINDADE 



Há um único Deus, vivo e verdadeiro, eterno, sem corpo, sem partes nem paixões, de infinito poder, sabedoria e bondade; Criador e Conservador de todas as coisas visíveis e invisíveis. E na unidade desta Divindade há três Pessoas, da mesma substância, poder e eternidade: o Pai, o Filho, e o Espírito Santo. 


ARTIGO II - DO VERBO OU FILHO DE DEUS, QUE SE FEZ VERDADEIRO HOMEM 


O Filho, que é o Verbo do Pai, gerado ab æterno do Pai, verdadeiro e sempiterno Deus, e consubstancial com o Pai, tomou a natureza humana no ventre da bendita Virgem e da sua substância; de sorte que as duas inteiras e perfeitas Naturezas, isto é, divina e humana, se reuniram em uma Pessoa, para nunca mais se separarem, das quais resultou Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem; que verdadeiramente padeceu, foi crucificado, morto e sepultado, para reconciliar seu Pai conosco, e ser vítima não só pela culpa original, mas também pelos atuais pecados dos homens. 


ARTIGO III - DA DESCIDA DE CRISTO AO HADES 


Assim como Cristo morreu por nós, e foi sepultado; assim também deve ser crido que desceu ao Hades. 


ARTIGO IV - DA RESSURREIÇÃO DE CRISTO 


Cristo verdadeiramente ressurgiu dos mortos e tomou de novo o seu corpo, com carne, ossos e tudo o mais pertencente à perfeição da natureza humana; com o que subiu ao Céu, e lá está assentado, até que volte a julgar todos os homens, no derradeiro dia. 


ARTIGO V - DO ESPÍRITO SANTO 


O Espírito Santo, procedente do Pai e do Filho, é da mesma substância, majestade e glória que o Pai e o Filho, verdadeiro e eterno Deus. 


ARTIGO VI - DA SUFICIÊNCIA DAS ESCRITURAS SAGRADAS PARA A SALVAÇÃO 


A Escritura Sagrada contém todas as coisas necessárias para a salvação; de modo que tudo o que nela não se lê, nem por ela se pode provar, não deve ser exigido de pessoa alguma seja crido como artigo de fé ou julgado como requerido ou necessário para a salvação. Pelo nome de Escritura Sagrada entendemos os Livros canônicos do Velho e do Novo Testamentos, de cuja autoridade jamais houve qualquer dúvida na Igreja .

Dos nomes e número dos livros canônicos

Gênesis - Êxodo - Levítico - Números - Deuteronômio - Josué - Juízes - Rute - I Samuel - II Samuel - I Reis - II Reis - I Crônicas - II Crônicas - Esdras - Neemias - Ester - Jó - Salmos - Provérbios - Eclesiastes ou Pregador - Cântico dos Cânticos - Isaías - Jeremias - Lamentações de Jeremias - Ezequiel - Daniel - Oséias - Joel - Amós - Obadias - Jonas - Miquéias - Naum - Habacuque - Sofonias - Ageu - Zacarias - Malaquias.

E os outros Livros (como diz Jerônimo) a Igreja os lê para exemplo de vida e instrução de costumes; mas não os aplica para estabelecer doutrina alguma; tais são os seguintes:
III Esdras - IV Esdras - Tobias - Judite - O restante dos livros de Ester - Sabedoria - Jesus, filho de Siraque - Baruque - O Cântico dos Três Mancebos - A história de Suzana - De Bel e o dragão - Oração de Manassés - I Macabeus - II Macabeus.

Recebemos e contamos por canônicos todos os 27 Livros do Novo Testamento, como são comumente recebidos. 



ARTIGO VII - DO VELHO TESTAMENTO 


O Velho Testamento não é contrário ao Novo; porquanto em ambos, tanto o Velho como o Novo, se oferece a vida eterna ao gênero humano, por Cristo, que é o único mediador entre Deus e o homem sendo ele mesmo Deus e homem. Portanto não devem ser ouvidos os que pretendem que os antigos pais só esperaram promessas transitórias. Ainda que a Lei de Deus, dada por meio de Moisés, no que respeita a cerimônia e ritos, não obrigue os cristãos, nem devem ser recebidos necessariamente os seus preceitos civis em nenhuma comunidade; todavia, não há cristão algum que esteja isento, da obediência aos mandamentos que se chamam morais.

ARTIGO VIII - DOS CREDOS 


O Credo Niceno e o que ordinariamente se chama Símbolo dos Apóstolos devem ser inteiramente recebidos e cridos; porque se podem provar com autoridade muito certa da Escritura Sagrada. 


ARTIGO IX - DO PECADO ORIGINAL 


O pecado original não consiste na imitação de Adão (como vãmente pregado pelos pelagianos); é, porém, a falta e corrupção da natureza de todo o homem gerado naturalmente da semente de Adão; pelas quais o homem dista muitíssimo da retidão original e é de sua própria natureza inclinado ao mal, de sorte que toda a carne sempre cobiça contra o espírito; e, por isso, toda pessoa que nasce neste mundo merece a ira e condenação de Deus. E esta infecção da natureza ainda permanece também nos que são regenerados, pela qual o apetite carnal chamado em grego phrônema sarkós (que uns interpretam sabedoria, outros sensualidade, outros afeição e outros desejo carnal), não sujeito à Lei de Deus e apesar de que não há condenação para os que crêem e são batizados, contudo o apóstolo confessa que a concupiscência e a luxúria têm em si mesmas a natureza do pecado. 


ARTIGO X - DO LIVRE ARBÍTRIO 


A condição do homem depois da queda de Adão é tal que ele não pode converter-se e preparar-se a si mesmo por sua própria força natural e boas obras, para a fé e invocação a Deus. Portanto não temos o poder de fazer boas agradáveis e aceitáveis a Deus, sem que a graça de Deus por Cristo nos previna, para que tenhamos boa vontade, e coopere conosco enquanto temos essa boa vontade. 

ARTIGO XI - DA JUSTIFICAÇÃO DO HOMEM 


Somos reputados justos perante Deus, somente pelo mérito do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo pela Fé, e não por nossos próprios merecimentos e obras. Portanto, é doutrina mui saudável e cheia de consolação a de que somos justificados somente pela fé, como se expõe mais amplamente na Homilia da Justificação. 


ARTIGO XII - DAS BOAS OBRAS 


Ainda que as boas obras, que são os frutos da fé, e seguem a justificação, não possam expiar os nosso pecados, nem suportar a severidade do juízo de Deus; são, todavia, agradáveis e aceitáveis a Deus em Cristo, e brotam necessariamente duma verdadeira e viva fé; tanto que por elas se pode conhecer tão evidentemente uma fé viva como uma árvore se julga pelo fruto. 


ARTIGO XIII - DAS OBRAS ANTES DA JUSTIFICAÇÃO 


As obras feitas antes da graça de Cristo, e da inspiração do seu Espírito, não são agradáveis a Deus, porquanto não procedem da fé em Jesus Cristo; nem fazem os homens dignos de receber a graça, nem (como dizem os autores escolásticos) merecem a graça de congruidade; muito pelo contrário, visto que elas não são feitas como Deus quis e ordenou que fossem feitas, não duvidamos terem elas a natureza do pecado. 


ARTIGO XIV - DAS OBRAS DE SUPERERROGAÇÃO 


As obras voluntárias, que excedem os mandamentos de Deus, e que se chamam obras de supererrogação, não se pode ensinar sem arrogância e impiedade; porque por elas declaram os homens que não só rendem a Deus tudo a que são obrigados, mas também a favor dele fazem mais do que, como rigoroso dever, lhes é requerido; ainda que Cristo claramente disse: Quando tiveres feito tudo o que vos está ordenado dizei: Somos servos inúteis. 


ARTIGO XV - DE CRISTO ÚNICO SEM PECADO 


Cristo, na verdade de nossa natureza foi feito semelhante a nós em todas as coisas exceto no pecado, do qual foi totalmente isento, tanto na sua carne como no seu espírito. Ele veio para ser o Cordeiro imaculado, que, pelo sacrifício de si mesmo uma vez oferecido tirasse os pecados do mundo; e o pecado (como diz S. João) não estava nele. Porém nós, os demais homens, posto que batizados, e nascidos de novo em Cristo, ainda pecamos em muitas coisas; e se dissermos que não temos pecado, a nós mesmos nos enganamos, e não há verdade em nós. 


ARTIGO XVI - DO PECADO DEPOIS DO BATISMO 


Nem todo pecado mortal voluntariamente cometido depois do Batismo é pecado contra o Espírito Santo, e irremissível. Pelo que não se deva negar a graça do arrependimento aos que tiverem caído em pecado depois do batismo. Depois de termos recebido o Espírito Santo, podemos apartar-nos da graça concedida, e cair em pecado, e pela graça de Deus levantar-nos de novo e emendar nossas vidas. Devem, portanto, ser condenados os que dizem que já não podem pecar mais, enquanto aqui vivem, ou os que negam a oportunidade de perdão às pessoas verdadeiramente arrependidas. 

ARTIGO XVII - PREDESTINAÇÃO E ELEIÇÃO 


A predestinação para a vida é o eterno propósito de Deus, pelo qual (antes de lançados os fundamentos do mundo) tem constantemente decretado por seu conselho, a nós oculto, livrar da maldição e condenação os que elegeu em Cristo dentre o gênero humano, e conduzi-los por Cristo à salvação eterna, como vasos feitos para a honra. Por isso os que se acham dotados de um tão excelente benefício de Deus, são chamados segundo o propósito de Deus, por seu Espírito operando em tempo devido; pela graça obedecem à vocação; são justificados gratuitamente; são feitos filhos de Deus por adoção; são criados conforme a imagem de seu Unigênito Filho Jesus Cristo; vivem religiosamente em boas obras, e enfim chegam, pela misericórdia de Deus, à felicidade eterna.

Assim como a pia consideração da predestinação, e da nossa eleição em Cristo, é cheia de um doce, suave, e inexplicável conforto para as pessoas devotas, e os que sentem em si mesmos a operação do Espírito de Cristo, mortificando as obras da carne, e seus membros terrenos, e levantando o seu pensamento às coisas altas e celestiais, não só porque muito estabelece e confirma a sua fé na salvação eterna que hão de gozar por meio de Cristo, mas porque veemente acende o seu amor para com Deus; assim para as pessoas curiosas e carnais, destituídas do Espírito de Cristo, o ter de contínuo diante dos seus olhos a sentença da Predestinação de Deus, é um princípio muitíssimo perigoso, por onde o Diabo as arrasta ao desespero, ou a que vivam numa segurança de vida impuríssima, não menos perigosa que a desesperação.

Além disso, devemos receber as promessas de Deus de modo que nos são geralmente propostas nas Escrituras Sagradas; e seguir em nossas obras a vontade de Deus, que nos é expressamente declarada na Sua Palavra. 



ARTIGO XVIII - DE OBTER A SALVAÇÃO ETERNA UNICAMENTE PELO NOME DE CRISTO 


Devem ser também tidos por amaldiçoados os que se atrevem a dizer que todo o homem será salvo pela lei ou seita que professa, contanto que seja cuidadoso em modelar sua vida segundo essa lei e o lume da natureza. Porque a Escritura Santa somente nos propõe o nome de Jesus Cristo, como único meio pelo qual os homens se hão de salvar. 


ARTIGO XIX - DA IGREJA 


A Igreja visível de Cristo é uma congregação de fiéis, na qual é pregada a pura Palavra de Deus, e são devidamente administrados os sacramentos conforme à Instituição de Cristo em todas as coisas que necessariamente se requerem neles.
Assim como a Igreja de Jerusalém, de Alexandria, e de Antioquia erraram; assim também a Igreja de Roma errou, não só quanto às suas práticas, ritos e cerimônias, mas também em matéria de fé.



ARTIGO XX - DA AUTORIDADE DA IGREJA 


A Igreja tem poder de decretar ritos ou cerimônias, e autoridade nas controvérsias da fé, todavia não é lícito à Igreja ordenar coisa alguma contrária à Palavra de Deus escrita, nem expor um lugar da Escritura de modo que repugne a outro. Portanto, se bem que a Igreja seja testemunha e guarda da Escritura Sagrada, todavia, assim como não é lícito decretar coisa alguma contra ela, também não se deve obrigar a que seja acreditada coisa alguma, que nela não se encontra, como necessária para a salvação. 


ARTIGO XXI - DA AUTORIDADE DOS CONCÍLIOS GERAIS 


[O vigésimo primeiro artigo dos precedentes é omitido porque é, em parte, dum caráter local e civil, e é provido, no tocante às restantes partes dele, em outros artigos]. 


ARTIGO XXII - DO PURGATÓRIO 


A doutrina romana relativa ao purgatório, indulgências, veneração e adoração tanto de imagens como de relíquias, e também à invocação dos santos, é uma coisa fútil e vãmente inventada, que não se funda em testemunho algum da Escritura, mas ao contrário repugna à Palavra de Deus. 


ARTIGO XXIII - DA MINISTRAÇÃO NA IGREJA


A ninguém é lícito tomar sobre si o cargo de pregar publicamente, ou administrar os sacramentos na congregação, antes que seja legalmente chamado, e enviado a executá-lo. E devemos julgar por legalmente chamados e enviados aqueles que tiverem sido escolhidos e chamados para esta obra pelos homens revestidos publicamente de autoridade, dada à eles na congregação, para chamar e enviar ministros à vinha do Senhor. 


ARTIGO XXIV - DA LÍNGUA VERNÁCULA DO CULTO 


Repugna evidentemente a Palavra de Deus, e ao uso da Igreja primitiva dizer orações públicas na Igreja, ou administrar os sacramentos em língua que o povo não entende. 


ARTIGO XXV - DOS SACRAMENTOS 


Os sacramentos instituídos por Cristo não são unicamente designações ou indícios da profissão dos cristãos, mas antes testemunhos certos e firmes, e sinais eficazes da graça, e da boa vontade de Deus para conosco pelos quais ele opera invisivelmente em nós, e não só vivifica, mas também fortalece e confirma a nossa fé nele.

São dois os sacramentos instituídos por Cristo nosso Senhor no Evangelho, isto é, o batismo e a ceia do Senhor.

Os cinco vulgarmente chamados sacramentos, isto é, confirmação, penitência, ordens, matrimônio, e extrema unção, não devem ser contados como sacramentos do Evangelho, tendo em parte emanado duma viciosa imitação dos apóstolos, e sendo em parte estados de vida aprovados nas Escrituras; não têm, contudo, a mesma natureza de sacramentos peculiar ao batismo e à ceia do Senhor, porque não tem sinal algum visível ou cerimônia instituída por Deus.

Os sacramentos não foram instituídos por Cristo para servirem de espetáculo, ou serem levados em procissão, mas sim para devidamente os utilizarmos. E só nas pessoas que dignamente os recebem é que produzem um saudável efeito ou operação; mas os que indignamente os recebem adquirem para si mesmos a condenação, como diz São Paulo. 



ARTIGO XXVI - DA INDIGNIDADE DOS MINISTROS, A QUAL NÃO IMPEDE O EFEITO DOS SACRAMENTOS 


Ainda que na Igreja visível os maus sempre estejam misturados com os bons, e às vezes os maus tenham a principal autoridade na Administração da Palavra e dos Sacramentos; todavia, como não o fazem em seu próprio nome, mas no de Cristo, e em comissão e por autoridade dele administram, podemos usar do seu Ministério, tanto em ouvir a Palavra de Deus, como em receber os Sacramentos.

Nem o efeito da ordenança de Cristo é tirado pela sua iniqüidade, mas a graça dos dons de Deus diminui para as pessoas que com fé e devidamente recebem os sacramentos que se lhe administram; os quais são eficazes por causa da instituição e promessa de Cristo, apesar de serem administrados por homens maus.

Não obstante, à disciplina da Igreja pertence que se inquira acerca dos ministros maus, e que sejam estes acusados por quem tenha conhecimento de seus crimes; e sendo, enfim, reconhecidos culpados, sejam depostos mediante justa sentença. 



ARTIGO XXVII - DO BATISMO 


O batismo não só é um sinal de profissão e marca de diferença, com que se distinguem os cristãos dos que o não são, mas também um sinal de regeneração ou novo nascimento, pelo qual, como por instrumento, os que recebem o batismo devidamente, são enxertados na Igreja; as promessas da remissão dos pecados, e da nossa adoção como filhos de Deus pelo Espírito Santo, são visivelmente marcadas e seladas, a fé é confirmada, e a graça aumentada por virtude da oração de Deus.

O batismo das crianças deve conservar-se de qualquer modo na Igreja como sumamente conforme à instituição de Cristo. 



ARTIGO XXVIII - DA CEIA DO SENHOR 


A ceia do Senhor não só é um sinal de mútuo amor que os cristãos devem ter uns para com os outros; mas antes é um sacramento da nossa redenção pela morte de Cristo, de sorte que para os que devida e dignamente, e com fé o recebem, o pão que partimos é uma participação do Corpo de Cristo; e de igual modo o cálice de bênção é uma participação do Sangue de Cristo.

A transubstanciação (ou mudança da substância do pão e do vinho) na ceia do Senhor, não se pode provar pela Escritura Sagrada; mas antes repugna às palavras terminantes da Escritura, subverte a natureza do sacramento, e tem dado ocasião a muitas superstições. O Corpo de Cristo é dado, tomado, e comido na ceia, somente dum modo celeste e espiritual. E o meio pelo qual o Corpo de Cristo é recebido e comido na ceia é a fé.

O sacramento da ceia do Senhor não foi pela ordenança de Cristo reservado, nem levado em procissão, nem elevado, nem adorado. 



ARTIGO XXIX - DOS ÍMPIOS, QUE NÃO COMEM O CORPO DE CRISTO NA CEIA DO SENHOR


Os ímpios, e os destituídos da fé viva, ainda que carnal e visivelmente comprimam com os dentes (como diz santo Agostinho) o sacramento do Corpo e Sangue de Cristo; nem por isso são de maneira alguma participantes de Cristo: mas antes, para sua condenação, comem e bebem o sinal ou sacramento de uma coisa tão importante. 

ARTIGO XXX - DE AMBAS AS ESPÉCIES 


O cálice do Senhor não se deve negar aos leigos; porque ambas as partes do sacramento do Senhor, por instituição e ordem de Cristo, devem ser administradas a todos os cristãos igualmente.


ARTIGO XXXI - DA ÚNICA OBLAÇÃO DE CRISTO CONSUMADA NA CRUZ 


A oblação de Cristo uma só vez consumada é a perfeita redenção, propiciação, e satisfação por todos os pecados, tanto originais como atuais, do mundo inteiro; e não há nenhuma outra satisfação pelos pecados, senão esta unicamente. Portanto os sacrifícios das missas, nos quais vulgarmente se dizia que o sacerdote oferecia Cristo para a remissão da pena ou culpa, pelos vivos ou mortos, são fábulas blasfemas e enganos perigosos. 


ARTIGO XXXII - DO CASAMENTO DE SACERDOTES 


Os bispos, presbíteros e diáconos não são obrigados, por preceito algum da lei de Deus, a votar-se ao estado celibatário, ou abster-se do matrimônio; portanto é-lhes lícito, como aos demais cristãos, casar como entenderem, se julgarem que isso lhes é mais útil à piedade. 


ARTIGO XXXIII - COMO DEVEMOS EVITAR AS PESSOAS EXCOMUNGADAS 


Aquele que por denúncia pública da Igreja for justamente separado da unidade da Igreja, e suspenso da comunhão, deve ser tido por pagão e publicano por todos os fiéis, até que seja mediante penitência recebido nas Igreja por um juiz que tenha autoridade para isso. 


ARTIGO XXXIV - DAS TRADIÇÕES DA IGREJA 


Não é necessário que as tradições e cerimônias sejam em toda parte as mesmas, ou totalmente semelhantes; porque em todos os tempos têm sido diversas, e podem ser alteradas segundo as diversidades dos países, tempo e costumes dos homens, contanto que nada se estabeleça contrário à Palavra de Deus. Todo aquele que por seu particular juízo, com ânimo voluntário e deliberado, quebrar manifestamente as tradições e cerimônias da Igreja, que não são contrárias à Palavra de Deus, e se acham estabelecidas e aprovadas pela autoridade comum, (para que outros temam fazer o mesmo), deve ser publicamente repreendido, como quem ofende a ordem comum da Igreja, fere a autoridade do magistrado, e vulnera as consciência dos irmãos débeis.
Toda a Igreja particular ou nacional tem autoridade, para ordenar, mudar e abolir as cerimônias ou ritos da Igreja, instituídos unicamente pela autoridade humana, contanto que tudo se faça para edificação. 



ARTIGO XXXV - DAS HOMILIAS 


O Segundo livro das Homilias, cujos títulos reunimos abaixo deste artigo, contém doutrina pia, saudável e necessária para estes tempos, como também o primeiro livro das Homilias, publicado ao tempo de Eduardo VI; e portanto julgamos que devem ser lidas pelos ministros, diligente e distintamente nas igrejas, para que sejam entendidas pelo povo.

Dos nomes das homilias

1. Do uso correto da Igreja
2. Contra o perigo da idolatria
3. Do reparo e asseio das Igrejas
4. Das boas obras: principalmente jejum
5. Contra a glutonaria e embriaguez
6. Contra o luxo do vestuário
7. Da oração
8. Do lugar e Templo da Oração
9. De como Orações e Sacramentos se devem ministrar em língua conhecida
10. Da reverente estima à Palavra de Deus
11. Das esmolas
12. Da natividade de Cristo
13. Da Paixão de Cristo
14. Da ressurreição de Cristo
15. Da digna recepção do Sacramento do Corpo de Cristo
16. Dos dons do Espírito Santo
17. Para os dias de Rogações
18. Do estado do matrimônio
19. Do arrependimento
20. Contra a ociosidade
21. Contra a rebelião 



[Este Artigo é recebido nesta Igreja enquanto declara que os livros das Homilias são explicações da doutrina cristã, e se destinam à instrução na piedade e moralidade. As referências à constituição e leis da Inglaterra são, porém, consideradas implacáveis às circunstâncias desta Igreja pelo que está suspensa também a ordem para leitura das referidas Homilias nas Igrejas, até que se proceda à revisão que se impõe, para livrá-las tanto de palavras obsoletas como das referências de natureza local]. 


ARTIGO XXXVI - DA SAGRAÇÃO DE BISPOS E MINISTROS 


O livro da sagração de Bispos, e ordenação de Presbíteros e Diáconos, estabelecido pela Convenção Geral desta Igreja em 1792 contém tudo quanto é necessário para a referida sagração e ordenação; nem há nele coisa alguma que seja por si mesma supersticiosa e ímpia. E, por conseqüência, todos aqueles que são sagrados ou ordenados segundo a referida fórmula, decretamos que todos eles são reta, canônica e legalmente ordenados. 


ARTIGO XXXVII - DO PODER DOS MAGISTRADOS CIVIS 


O poder do magistrado civil estende-se a todos os homens, tanto clérigo como leigos, em todas as coisas temporais; porém não tem autoridade alguma em coisa puramente espirituais. E temos por dever de todos os homens que professam o Evangelho o renderem obediência respeitosa à autoridade civil, que é regular e legitimamente constituída. 


ARTIGO XXXVIII - DE QUE NÃO SÃO COMUNS OS BENS ENTRE CRISTÃOS 


As riquezas e bens dos cristãos não são comuns quanto ao direito, título e posse, como falsamente apregoam certos anabatistas. Todos, no entanto, das coisas que possuem devem dar liberalmente esmola aos pobres, segundo o seu poder. 

ARTIGO XXXIX - DO JURAMENTO DUM CRISTÃO 


Assim como confessamos que o juramento vão e temerário é proibido aos cristãos por nosso Senhor Jesus Cristo, e por Tiago, seu apóstolo, assim também julgamos que a religião cristã de nenhum modo proíbe que uma pessoa jure quando o magistrado o exige em causa de fé e caridade; contanto que isto se faça segundo a doutrina do profeta, em justiça, juízo e verdade.